terça-feira, 16 de agosto de 2011

A REALIDADE DO HOMEM

A REALIDADE DO HOMEM

Virgilio Pereira dos Reis – De 13 mai 2011-05-13 a 19-05-2011



Estamos no mundo. Vivemos. Sentimo-nos. Sentimos o outro. Somos. Estamos. E, por sabermos disto, nos autodenominamos animais racionais. Entretanto, que mundo é este em que vivemos? Ele é o fruto do nosso trabalho ou fruto da nossa imaginação? Ele é fruto dos nossos sonhos ou apenas é um mundo sem sentido. Ele é um mundo que criamos ou dele somos a criação?
Que somos criação deste mundo, excetuando os conceitos divinos que atribuem nossa origem a algo ou alguém superior, sobre-humano, não há grandes questionamentos. Viemos de algum recanto do espaço e por aqui nos adaptamos? Impossível não é, provável também não. Evoluímos a partir da combinação das energias que por aqui se concentraram? É possível. Somos uma cultura de outros seres vivos que nos colocaram por aqui para ver nossa adaptação, assim como fazemos com os animais, lhes injetando vírus e/ou bactérias e verificando nossa capacidade de resistência e capacidade de organizar o pensamento para descobrir como combatê-las? Pode ser que sim, pode ser que não. Especulações à parte visto que não podemos provar que sim nem que não são verdadeiras podemos nos restringir a dois pontos considerados os mais viáveis pela maioria: a evolução e a criação divina.
Se considerarmos a evolução como a hipótese mais provável resultará em que estamos neste mundo como seres decorrentes da geração deste planeta, fomos gerados pela terra, pelas águas, pelos ares. Por outro lado se formos considerar a criação divina resulta-nos crer que somos filhos de uma divindade que criou este mundo para a nossa acomodação durante umas curtas férias. Seja este mundo um lugar de penitência ou lugar de felicidade, seja a vida temporária ou eterna, aqui estamos neste planeta, vivendo dia a dia.
Esta consideração da existência da divindade pode levar a duas opções: somos criação da divindade ou somos seus criadores.
A única coisa que podemos afirmar genericamente, e mesmo assim desconsiderando que ainda existem restrições menores, é: “ESTAMOS AQUI E SABEMOS DISTO”.
Descartando tanto a teoria da evolução como a criação divina seja ela nossa ou dos deuses vamos nos ater a este ponto evidente: aqui estamos ou pelo menos acreditamos aqui estar. Mesmo que uma divindade tenha feito este planeta especificamente para nós ela por aqui não ficou trabalhando para mudar o mundo de acordo com as nossas necessidades, pelo contrário, o homem lutou e luta contra as forças naturais continuamente. Temos que convir que se a divindade fez este mundo para nós como um prêmio deixou muitos problemas e vetores que nos destroem. Tsunamis, terremotos, vulcões, doenças mil, tudo isto descarta a idéia de que aqui seja um paraíso destinado ao homem. Se ele foi feito para nos punir, com certeza tem tido um ótimo desempenho. A mortalidade, a dor, a angústia e o desespero grassam no mundo dos vivos e o homem lamenta desde que teve consciência de si mesmo. De qualquer forma, se nascemos para sermos punidos, é natural que reajamos ante a essa condenação da qual não temos conhecimento e nem fomos individualmente julgados.
O mundo existe. Nós existimos e estamos no mundo. Fazendo parte do mundo somos seus frutos ao mesmo tempo em que o procuramos tornar menos agressivo.
A relação mundo versus homem é interessante. O mundo segue seu curso tranquilamente, ele nos subjuga e nos leva a fazer o que podemos e pensamos querer fazer. Estamos nele e por ele somos formados. Por sua vez o homem já não tem essa segurança: ele não consegue perceber claramente o mundo em que vive. Sem clareza, sem definição, o mundo percebido pelo homem, na maioria das vezes é o resultado de uma divagação, de um sonho, de um desejo, de uma resignação, de uma revolta contra tudo o que lhe parece injusto. O mundo do homem é o resultado da formulação feita sob a influência da indignação e da impotência humana perante o desconhecido.
Vamos começar pelo mundo que nos cerca sem considerar os outros seres humanos. Temos a terra, o céu, as estrelas, as águas, a vegetação em geral, os demais animais, o relevo, os acidentes geográficos, o que se pode ou não comer ou beber. Estamos cercados do que é natural e também somos naturais. Percebemos pelos sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato, e, talvez, algum sentido eletromagnético que permita interagir com os campos eletromagnéticos de outrem ou da natureza em geral. Os sentidos são específicos, cada um com sua especialidade restringida a uma área bem definida e cada sentido humano depende do funcionamento biológico e mental de nosso organismo corporal, ou seja, cada um percebe da maneira que seu organismo permite e são as semelhanças resultantes da percepção nos diversos indivíduos que permitem que nos comuniquemos de maneira mais eficiente. A sociedade humana é fruto do que nos une embora haja muita coisa a nos separar.
Estamos no mundo e cada um o percebe ao seu modo. Separamos-nos do mundo quando nos cortam o cordão umbilical e, nesta condição, não estamos mais intrinsecamente imbricados no próprio mundo, embora ainda nele, estamos agora apartados dele e nossa relação vital de extrair coisas dele e devolver a ele os dejetos que não aproveitamos se inicia.
Iniciando pelo firmamento, pelo espaço pontilhado de astros luminosos ou não, cheio de energias perceptíveis ou ainda não por nós, nos sentimos pequeninos, um grão de areia, um ponto no espaço infinito. O que vemos no espaço sideral não é o que existe..., triste constatação. Milhares de anos luz são necessários para que a luz de uma estrela bem próxima chegue até nós, percebemos essa luz..., mas talvez a estrela que a enviou sequer exista mais. A luz do sol leva oito segundos para nos atingir logo tudo o que vemos, podemos colocar na linha do tempo considerando um retardo inicial de oito segundos considerando o sol como parâmetro.
Neste prosseguimento, tudo o que percebemos pela visão sofre um retardo decorrente da sua distância em relação a nossos olhos e em relação ao tempo em que nosso cérebro leva para decodificar e identificar o que foi percebido. Em suma, a realidade em que vivemos não existe... ela existiu, mas não existe no momento em que a percebemos, a mutabilidade lenta da realidade que nos cerca é que permite vivermos em um mundo do presente utilizando apenas as informações do passado..., isto poderá vir a ser muito perigoso.
Quem nos garante que algum meteoro gigantesco não esteja em rota de colisão com a Terra? Quem pode afirmar que alguma explosão de alguma estrela ou mesmo choques entre elas não produza uma radiação que possa vir a pulverizar nosso planeta? Quem poderá afirmar que o sol jamais emitirá radiações que sejam capazes de eliminar toda a vida por aqui?
Vivemos o presente nos valendo de informações do passado e mesmo assim nos arriscamos a projetar nossa realidade futura. Hipotecamos verdades e elas vão sendo consideradas válidas..., até que se prove o contrário... Nosso presente é difuso, incerto, porque é criado baseado em suposições, em desejos e ideias, em percepções do passado; nosso futuro é incerto porque nossa realidade presente é difusa, incerta, é passada. Hoje aqui estamos, amanhã poderemos não mais existir.
Alguns vivem bem, outros mal, outros muito mal, muitos sofrem dores atrozes, muitos gritam de dor, muitos fazem o bem ao próximo e sofrem, muitos fazem o mal ao próximo e gozam uma vida prazerosa. Os prêmios na vida não são exclusividade dos ditos bons, os bons sofrem, os maus se divertem e são saudáveis, os bons choram, os maus riem... quanta injustiça, não?
Quando se coloca os demais seres humanos numa relação de humanidade uma pequena diferença deve ser considerada: na natureza vigora a lei do mais forte, o homem é um ser natural, um animal fruto da natureza mesmo tendo sido desligado por meio do cordão umbilical (os mamíferos todos também o são). Ele não consegue escapar a essa lei. O mais forte dita as leis a seu favor, o mais forte subjuga o mais fraco. Esta é uma realidade clara, mas que por fazer parecer muito mais animalescos do que como nós mesmos nos procuramos disfarçá-la com algo que denominamos “justiça”. Criamos leis (mutáveis de acordo com a vontade do mais forte).
Assim temos uma dita democracia que eufeminiza o caráter selvagem do homem, predador, subjugador, prepotente. Parecemos ser civilizados, nossa legislação faz isto parecer verdadeiro. A imagem da mídia, a imagem pública, a imagem superficial de uma sociedade nos coloca em um patamar de civilidade quase divino. Mas nos bastidores desta mesma sociedade somos piores que qualquer outro ser vivo: somos cruéis, injustos, interesseiros, orgulhosos, gananciosos e invejosos, mas a imagem que queremos passar e passamos é a de que somos honestos, bons, amigos, cidadãos conscientes de nosso papel na sociedade que visa o bem estar comum.
Por causa desta suposta injustiça (lembrando que a justiça é uma invenção dos mais fracos) temos uma reação humana natural: para os que acreditam que um deus não tenha nos criado para sermos eternos e a morte física seja realmente o fim de um indivíduo humano fica uma angústia, um desespero, uma indignação mais contundente contra todo tipo de injustiça. Isto se dá porque se nada mais há além da vida temporal que vivemos, um desespero para tentar fazer com que esta curta vida seja a melhor possível se manifesta. Também temos casos mil de pessoas que, incapazes de conseguir pelo trabalho e labor o luxo e o prazer que pode vir a ser desfrutado nesta vida, simplesmente tomam o que deseja, se marginalizam, protagonizam a violência social.
Para os que acreditam em um deus que fez este mundo e o próprio homem da forma mais perfeita não se pode admitir que ele tenha sido injusto ao propiciar vida dura para os bons e bonança para muitos maus, dores e sofrimento e saúde e lazer para muitos maus, assim a eternidade da alma (invenção humana assim como tudo o que com ele se relaciona) passou a ser considerada.
A eternidade funciona como um mecanismo de defesa do sujeito; o que importa uma vida de dor e sofrimento durante toda uma curta existência em comparação com uma eternidade de prazer e regozijo? Resta então a dúvida; o homem criou deus e a eternidade para poder suportar o medo da morte e a injustiça? Deus criou o homem e este criou o paraíso para justificar tanta dor e injustiça? O homem, não suportando tanta dor, medo, angústia e sofrimento criou um deus para lhe consolar e, posteriormente, não aceitando um deus injusto criou a idéia de paraíso para evitar o destronamento do deus justo e perfeito que idealizou?
Comparando as duas situações, a dos que crêem em um deus e a dos que não, a ação positiva dos descrentes, historicamente tem levado a convivência social a reduzir as desigualdades. Os crentes deveriam induzir mais tranqüilidade, paz neste mundo... mas é isto o que acontece? Os descrentes querem mudanças já... os crentes não tem pressa... as mudanças levam a outras realidades, não se podendo afirmar melhores ou piores, apenas são outras realidades.
Imaginamos o espaço, deus, paraíso, fraternidade, lutas sangrentas, sociedades industriais, uma natureza personificada que luta e se vinga... imaginamos e vivemos de acordo com o que estabelecemos como verdades e essas verdades nada mais são aquilo que imaginamos que sejam.
Vivemos socialmente em uma realidade que idealizamos e trabalhamos para que ela se torne verdadeira, mas individualmente vivemos baseados nas informações que os sentidos turvos e confusos nos apresentam. Chegamos a um ponto chocante: “DETESTAMOS A REALIDADE”, queremos fugir dela, queremos que ela seja irreal, que seja uma realidade onde cada um possa alterá-la ao seu bel prazer. Cada sujeito possui seu conjunto de sentidos único, logo a realidade que cada um vive é única, daí que os sonhos de cada um também são únicos, decorre disto a grande dificuldade da existência da paz concreta na sociedade humana. Retire-se a repressão e a coerção dos meios de segurança que toda sociedade se desfaz, se autodestrói.
Os valores e as virtudes sociais são generalizadas, mas cada um as aceita mais ou menos de acordo com a sua interpretação da realidade. O que é evidente, lógico, natural, perfeitamente coerente e adequado para um pode ser algo torpe, sem sentido, desprezível, ilógico para outro. Daí tem-se que não pode haver uma sociedade ordeira sem a educação coercitiva que imponha leis, normas e regras que façam com que um sujeito, mesmo achando natural matar alguém, não o faça por receio de ser condenado e recluso. Por isto sem a coerção e a punição nenhuma sociedade sobrevive.
Vamos doravante divagar sobre este ódio à natureza, ódio à realidade mais próxima da verdadeira realidade. Essa ojeriza à natureza se manifesta em todo o tipo de arte, em todo o tipo de tradição, em toda doutrina religiosa, em toda cultura, em todo sonho, em toda imaginação. Fugir da realidade mais próxima da verdadeira é a droga que nos permite sobreviver em uma realidade insossa, insípida, insensível, instável, agressiva e sem beleza, mesmo que a beleza se manifeste em inúmeros fenômenos naturais (as belezas naturais, assim como tudo neste mundo, perdem seus encantos quando são apreciadas repetidamente).
Mesmo os mais belos fenômenos naturais são perigosos para o homem. Por que então não se deleitar em uma realidade que nos alegre, que nos dê prazer, que seja saudável, gostosa e onde nela se possa realizar todos os desejos? Mesmo não existindo uma realidade assim que possa ser compartilhada; cada um tem a sua realidade imaginada que tem mais valor e representatividade na sua mente e personalidade do que a realidade mais próxima da realidade verdadeira e, inclusive, é mais preponderante do que a realidade que a sociedade difunde como verdadeira.
O cinema é uma clara demonstração de que o que nos diverte e emociona não está na realidade, está na ficção. Mesmo os filmes baseados em fatos reais exageram nos pontos positivos que se deseja destacar e minorizam os pontos negativos que se deseja ocultar ou disfarçar. A música nos filmes existe na vida real? As cores, o tempo chuvoso ou geando, as coincidências mil, tudo isto é forjado para destacar a dinamicidade da história sem causar sonolência ao telescpectador. Já notaram como os caipiras norteamericanos do século XVIII e XIX falam corretamente o inglês? Perceberam como as belas mocinhas dos filmes da idade média, da antiguidade e mesmo até o século XVIII possuem dentições perfeitas, cabelos melhores do que as das modelos atuais?
Quanto belos e românticos beijos em filmes épicos... mas o beijo na boca somente teve início no século XIX (antes não se escovava os dentes, as bocas eram podres... o uso do leque era para esconder o mal hálito e os dentes pretos) . O feio é desvanecido e o belo desejado destacado, assim criamos nas artes em geral a realidade que encanta, agrada e diverte. O mocinho dos filmes sofre, estuda, treina como um desesperado para no final poder vencer o vilão seja ele qual for, mas veja que o vilão não treina, bebe, fuma, se diverte com as mulheres etc., mas no final é ele quem tem a oportunidade de eliminar o mocinho só não o fazendo para não frustrar os telespectadores.
Desenho animado é a arte que mais se destaca quanto à capacidade do homem criar a sua realidade. Gargalhadas em frente à TV, ri-se de tudo, de tudo o que não existe. No desenho é possível cair de um prédio de 30 andares e nada sofrer, é possível ser explodido por bombas e ficar em pedaçinhos e depois se reagrupar e continuar a correr atrás de algum outro personagem. Feitiços, sorte, imortalidade, poder pessoal, tudo isto cativa e diverte porque é num mundo assim que queríamos viver; sem morte, sem dor, onde o bem sempre vence o mal e além de tudo com muito prazer.
Dança. Este é outro ponto onde a imaginação se amplia. Quantos ritmos, quantas danças folclóricas. Alguns poucos se destacam em cada uma delas, poucos levam adiante uma cultura que nada mais tem a ver com a população que dizem representar.
O desafio que sujeita a morte a uma posição de vencida é o que estimula principalmente a juventude e aqueles que, tendo passado da idade insistem em viver uma vida de aventuras incompatível com seus cabelos brancos pintados de negro. Esportes radicais, esqui na neve, alpinismo, asa delta são exemplos. A sensação de vencer a morte estimula porque quanto mais próximo da morte mais se sente que está vivo. A recíproca também é provável: quanto mais vivos achamos que estamos mais próximos do estado de morto nos encontramos.
Literaturas de todos os gêneros divulgam realidades imaginadas. Os leitores se deliciam, se divertem vivendo na imaginação vidas em lugares inimagináveis, mas reais na imaginação tanto do escritor como do leitor.
O que nos permite dominar a nossa realidade imaginada é o que nos apetece. Carros, vídeos games, automotivos em geral, tudo o que pode ampliar nossa capacidade se nos apresenta como um atrativo que nos coloca mais presente na nossa realidade imaginada. Se eu dirijo um super carro ou lancha ou avião, se vôo de asa delta, se pulo de para quedas estou ampliando minha capacidade de me locomover, minha força, meu poder. Essa ampliação de capacidade nos aproxima da nossa realidade imaginada e isto nos dá prazer. O perigo é quando essa realidade imaginada se sobrepõe à realidade mais próxima da verdadeira e com isto temos a ocorrência de inúmeros acidentes devido ao excesso de velocidade, ao desrespeito às leis de trânsito etc.
No vídeo game somos heróis, podemos morrer inúmeras vezes e recomeçar até vencer. Somo poderosos, podemos fazer o que queremos, podemos escravizar, salvar, matar, morrer e ressuscitar o quanto quisermos. Somos alienados na nossa realidade imaginada enquanto nos envolvemos no jogo de modo geral.
Para complicar um pouco mais a situação ainda temos outra realidade: “aquela que queremos que os outros pensem que possuímos”. Nos carros se sente poderoso, forte, invencível, mostra uma posição que muitas vezes não possui. Quantos possuem carros de luxo, mas passam dificuldades financeiras até mesmo para custear uma boa alimentação. Da mesma forma a residência passa a imagem de uma realidade bem ou mal sucedida, financeiramente falando. Quantos se vestem com roupas de grife, mas passam dias sem uma boa refeição. Quantos ostentam jóias falsas na ilusão de que pensem ser verdadeiras e caras. Quantos ostentam anéis de formatura, se intitulam doutores sem ao mesmo terem concluído o ensino médio. Quantos freqüentam lugares da moda simplesmente para chegar perto de pessoas bem sucedidas, famosas e depois sair dizendo e se gabando para os amigos da sua realidade do dia a dia que se encontrara com seu amigo, o artista tal.
As realidades que imaginamos e acreditamos serem verdadeiras são as correntes que nos formam, que estabelecem os valores em que nos posicionamos culturalmente, que nos fornecem regras e costumes que nos levam ao desespero, à morte, e até mesmo a uma consolação.
Imaginamos um deus e ele dá as regras que daríamos caso fôssemos ele, imaginamos um paraíso que nem temos idéia de como seria e uma vida eterna e isto consola muitos que se sentem injustiçados nesta vida temporária aqui neste planeta. Imaginamos como gostaríamos de ser louvados e estabelecemos este pensamento para louvar ao deus que imaginamos. A imaginação se torna real quando determina a conduta do sonhador, quando estabelece com ele um vínculo que não permite mais desonhar.
Somos nosso deus e nosso demônio, somos os criadores que imaginamos e tornamos reais, pelo menos para nós mesmos, mundos e realidades que não existem senão na nossa crença desmedida; nos tornamos escravos de nossa própria realeza, de nossa capacidade de imaginar, de criar. Ao contrário do que acontece na realidade mais próxima do real onde construir é trabalhoso, caro e difícil e destruir é coisa de segundos, na realidade imaginada, construir é coisa de segundos, mas para destruir pode se levar milênios.
Quantas crenças errôneas foram consideradas como verdadeiras por milhares de anos... a terra é plana... a terra é o centro do universo... somos filhos de deus... somos eternos mesmo sem saber o que isto realmente significa em termos práticos... somos predestinados... existimos com um propósito que desconhecemos, mas que existe e é extremamente importante, nem que seja para outrem... tudo isto são coisas reais na imaginação que pouco a pouco vão se auto destruindo à medida em que o homem pára, conhece novas realidades imaginadas, usa um pouco mais a razão ao invés da imaginação, se firma mais na restrita realidade imaginada pela ciência que pouco a pouco vai corrigindo falhas e imaginações incoerentes e infundadas nas quais hoje ainda acredita.
Enfim pode-se dizer que o homem tem futuro porque, paulatinamente a tendência é que essas realidades imaginadas vão se fundindo, se mesclando, e, pouco a pouco vão se tornando uma. Somente a ciência poderá conduzir essa unificação de forma menos errônea, esperemos que ao fim de tantas inter-relações entre as realidades imaginadas se chegue a uma mais favorável para todos os homens sem que com isto se perca a identidade, a individualidade de cada um. Lógico seria que assim fosse, mas não podemos esperar uma realidade única porque simplesmente somos diferentes, ninguém é igual a nada e nem a ninguém e a realidade individual sempre se sobrepõe à realidade imaginada coletiva. Por mais que se sufoque o mundo imaginado e sentido pelo sujeito, a imaginação coletiva não será capaz de extirpar os grandes mundos de cada um.
O mundo se faz fazendo... o caminho se faz caminhando... são ditados que confirmam essa desesperança de um paraíso onde todos vivam bem coletiva e individualmente. Ao fim do caminho de cada um temos um fim. Um ótimo filme é caracterizado assim durante o momento em que é assistido, depois da sessão ele nada mais é do que um ótimo filme..., mas nunca mais será tão bom quando como foi durante a primeira vez em que foi visto... passou! Por isto dá tristeza quando se termina de ler um bom livro..., que pena que acabou
Se se acredita que este fim aconteça quando se dá a morte do corpo biológico assim será, se se acredita que será quando acontecer um julgamento por deus onde se será destruído ou recompensado ou punido eternamente, assim será para quem assim imagina. Porém a natureza não está nem um pouco preocupada com o que se imagina que ela seja, ela simplesmente é e tudo acontecerá como tem que acontecer, tenhamos nós imaginado corretamente ou não. Essa busca pela imaginação mais próxima da verdadeira realidade é o trabalho que os filósofos realizam, seja interrogando a ciência, seja interrogando as tantas realidades imaginadas por grupos culturais distintos. Portanto faça parte desse time: Interrogue!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A PEDAGOGIA SOCRÁTICA

A PEDAGOGIA SOCRÁTICA

Virgilio Pereira dos reis*

Este artigo teve a colaboração do filósofo Marcus Vinicius cujos comentários prévios enriqueceram este trabalho.

A pedagogia, no decorrer da história ocidental, foi desenvolvendo variantes que lhe possibilitava ir se adaptando a cada novo tempo que se apresentava. Estas variantes ora conviviam, ora se aprimoravam, ora se tornavam obsoletas, e mesmo eram desenterradas. Dificilmente se poderá definir uma pedagogia que atenda satisfatoriamente a todas as culturas existentes neste planeta; afinal temos povos vivendo ainda na idade da pedra, na idade do ferro, na idade média, na idade moderna e também temos culturas que priorizam o futuro tecnológico e extraterrestre.
Embora a pedagogia venha sendo pensada há séculos pelos educadores, filósofos, políticos e outros interessados nesta questão de uma coisa não se pode esquecer: “a pedagogia é o instrumento que a sociedade civil utiliza para preparar os membros de que necessita”. Muito se tem discutido sobre o papel da pedagogia e a demagogia mais recente é a de que ela se destina a formar cidadãos críticos e reflexivos. Entretanto, o que se pode constatar é que esta ferramenta é utilizada por mãos da sociedade civil que organiza os governos e definem os rumos de um país.
O emprego dessa ferramenta é voltado para a reprodução e enriquecimento das camadas dominantes da sociedade civil de forma a mantê-la e fortalecê-la continuamente garantindo assim sua linhagem no decorrer dos tempos.
O interessante dessa ferramenta é que mesmo o seu não uso é uma forma de utilização, quando ela não é empregada está formando mão-de-obra para as funções erroneamente consideradas menos dignas em virtude da não exigência de um grau de escolaridade maior.
Como a pedagogia atua depende da sociedade à qual serve, isto é uma decorrência natural visto que o todo, em qualquer regime político, prevalece ante ao indivíduo, mesmo que esse todo seja representado por uma sociedade civil excludente.
*O autor é formado em Engenharia Elétrica pela universidade Veiga de Almeida, em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas e em Pedagogia pela Universidade do Estado do Amazonas, tendo concluído a especialização em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal do Amazonas.
Na sociedade civil, para fins de esclarecimento, sempre se tem incluído, a estrutura militar que é a força repressiva que permite a ordem social, que permite que uma sociedade exista. Sem o poder de coerção as leis seriam interpretadas ao bel prazer de cada grupelho, de cada um em condição de manipular uma força qualquer.

Assim, de pronto, descarta-se essa linha ideologizante de que a pedagogia visa preparar o sujeito para que ele se realize e possa aspirar à felicidade, sua função não é esta, o que ela propõe é formar cidadãos para que as camadas dominantes da sociedade cível possa se tornar cada vez mais poderosa e, se possível, feliz.
Cartas sobre a mesa pode-se então desmistificar outro mito: a democracia permite mais liberdade ao estudante, ao pesquisador, ao inventor, ao escritor etc. O mercado de trabalho na área educacional é um dos mais concorridos, a maioria das universidades públicas, em seus editais para concursos públicos estabelecem o grau de doutorado, no mínimo mestrado, para se poder inscrever. Não que seja necessário ser doutor para dar as aulas de que os alunos da graduação necessitam, mas essa exigência decorre da necessidade da universidade se destacar nas pesquisas. Graduar, pesquisar e oferecer cursos e elaborar atividades de extensão para a comunidade são o tripé da universidade, mas o principal deveria ser o de fornecer um curso de graduação de qualidade cada vez maior, mas o que se vê é que a pesquisa que atrai recursos, fama e projeção individual se tornou o foco principal.
Um professor da graduação é contratado para tal e dele se exige o doutorado, não para que ele prepare e ministre melhores aulas, mas para que ele possa se engajar em projetos de pesquisas que destaque a universidade no meio acadêmico. Como é de se esperar a prioridade da pesquisa deixa em último plano as aulas da graduação e raros são os professores doutores que respeitam seus alunos e planejam suas aulas com objetividade.
Na área administrativa a concorrência é absurda. Apenas como exemplo destaca-se que o fato da freqüência escolar ser obrigatória já descaracteriza essa tal falada democracia. Educação é um direito do cidadão e dever do Estado e não obrigação do cidadão. Quantas vidas se perdem estudando o que não querem estudar, se esforçando para aprender o que são obrigadas a estudar apenas para poderem concorrer a um emprego de gari que exige que os catadores de lixo conheçam o binômio de Newton, trigonometria, geometria, tipos das raízes dos vegetais e muitas coisas que nada tem a ver com o dia a dia da maioria dos cidadãos. Se enveredar no ramo da educação, realmente não é uma boa alternativa que garanta que se possa chegar a uma realização pessoal.
Além do corporativismo existente temos uma preparação voltada para os grandes centros educacionais que prometem melhores remunerações. Estes abrigam, quase que exclusivamente, os membros das camadas economicamente mais elevadas da sociedade civil. Vez por outra alguns poucos conseguem se infiltrar, mas isto não afeta estes grupos porque, mesmo tendo os infiltrados ocupado algumas vagas nos níveis iniciais vão ficando, pouco a pouco, pelo caminho no desenvolver da carreira. Por exemplo, caso algum estranho se forme diplomata no Instituto Rio Branco dificilmente chegará a se tornar embaixador em um país internacionalmente importante.
Em toda atividade existem posições espinhosas e estas são as exercidas pelos intrusos que as aceitam com orgulho. Assim se dá uma discriminação que não aparece, invisível, que, ao mesmo tempo que alegra os discriminados livra os “eleitos” de tarefas difíceis que possam vir a manchar sua reputação pelo risco das decisões exigidas. Evidente é que quanto mais se sobe em qualquer ramo da sociedade, mais sujeito às influências políticas se fica; não é a política que determina os rumos de uma nação?
Voltando à pedagogia. Muitos educadores teóricos e/ou práticos se destacaram. Dentre eles podemos citar Sócrates, Aristóteles, Jan Amos Seges (Comenius) os jesuítas com o Ratio Studiorum, Lancaster, John Dewey, Skinner, Paulo Freire, Jean Piaget, Wallon, Lauria, Emília Ferrero e muitos outros não menos importantes. O que se pode observar em cada um deles é que sua participação se deu a partir da sociedade em que viviam e estas tinham características e problemas específicos. Os países com sociedades diferentes que simplesmente tentaram implantar a didática desses educadores não tiveram o sucesso que esperavam.
Os processos de ensinoaprendizagens aparentemente progrediram, mas sempre seguem duas linhas distintas. A primeira destina-se a fortalecer e manter os membros das camadas que detém a economia e o poder da sociedade civil e a segunda é a que visa qualificar a mão-de-obra destinada a servir aos interesses da primeira.
Quanto à atuação de Sócrates vê-se que ele, por princípio, ou por que não dizer estratégia, utilizava da mensagem que se credita a algum sábio da antiguidade esculpida no oráculo da ilha de Delphos que homenageava Apolo: CONHECE-TE A TI MESMO.
Na apologia de Sócrates Platão coloca que Sócrates visitou esse oráculo para confirmar o que disse Querofonte. Segundo pítia, a sacerdotiza de Apolo, Sócrates era o mais sábio dos homens. O que Sócrates constatou foi que o fato dele saber que pouco ou nada sabia era justamente a razão que se mostrava para que ele fosse indicado como sábio.
Conhece-te a ti mesmo, e tudo o que sei é que nada sei foram os pilares que sustentaram o pensamento socrático. O primeiro o levou a tentar compreender o comportamento humano e a ver o mundo a partir do homem e não mais a partir dos deuses. O segundo o direcionou para a sua metodologia inovadora que tanto irritou seus contemporâneos mais proeminentes.
Ele afirmava nada ensinar pelo simples fato de nada saber. Então, o que ele fazia eram perguntas que, ao serem respondidas, eram refutadas por Sócrates caso não estivessem de acordo com o que ele mesmo pensava sobre o assunto em pauta. Essa refutação se dava por meio de novas perguntas que questionavam as respostas dadas pelo interlocutor/aluno. Essas perguntas procuravam levar seu interlocutor/aluno a contradições claras que o levava a reconhecer que sua resposta primeira não atendia plenamente ao questionamento em debate.
Quando o interlocutor não sabia o que responder Sócrates lhe propunha uma solução para a questão, mas sempre se certificava de que seu aluno adotasse a resposta proposta como se fosse realmente a sua resposta. Ele afirmava: Como você disse... ou Você disse que... não foi isto? Exigia um sim para que ficasse evidente que a resposta que ele mesmo apresentava era agora a resposta convicta do interlocutor. Tendo conseguido isto Sócrates dava então prosseguimento ao seu método pedagógico e refutava a resposta até então aceita como válida.
Obtendo novas respostas e as analisando e aceitando ou refutando ia levando seu interlocutor a construir um conhecimento considerável sobre o tema em pauta. Ou seja, o interlocutor construía um conhecimento. Construir, este vocábulo não lembra algo sobre a linha pedagógica do construtivismo, tão decantada no século XX?
O interlocutor precisava ter boa memória visto que a escrita não era inclusa na sua didática e sim a oralidade. Era preciso memorizar e isto levava a exercícios que consolidassem a fixação das informações. Estes exercícios não eram penosos por um único motivo: o interlocutor que o procurava queria realmente aprender, e isto de forma voluntária. O interesse do interlocutor era pessoal, quem não se motivasse poderia se retirar a qualquer momento ou então deixar de dialogar. Para reter seu parceiro de debate Sócrates regularmente utilizava artimanhas para evitar a saída do interlocutor; era pródigo em elogios sobre a inteligência e a memória do mesmo. Ele se diminuía e engrandecia seu interlocutor para que este, com a autoestima elevada desse prosseguimento à análise do tema ora em debate. Nesses exercícios mnemônicos temos bem evidentes o tecnicismo tão valorizado nos anos 60 e 70 do século XX.
Sócrates considerava seu aluno como único e, como tal, os argumentos que utilizava levava em conta seus conhecimentos anteriores. Sabia quem eram seus pais, seus amigos e seus papéis na sociedade.
O desejo de conhecer era estimulado sempre focando que o saber evita decisões que provocam danos posteriores e que da ignorância é que se originavam os males que afligem os homens. Entretanto Sócrates não sai pela cidade à cata de alunos, os que se interessavam é que o procuravam.
Algo similar sempre ocorreu e vem ocorrendo no mundo das estrelas do saber, seja qual for o seu campo. Os considerados como sendo os melhores, em qualquer área do conhecimento não precisam mais sair à procura de seguidores que possam com eles dividir as inúmeras atividades inerentes à pesquisa que desenvolve; aqueles que realmente são interessados (não importa qual a motivação desse interesse, se fama, ingresso no mundo dos melhores, se político ou econômico) o que fica claro é que aqueles que os procuram desejam realmente se aprimorar em determinado segmento do conhecimento, mas regularmente, apenas os escolhidos pelos mestres recebem alguma atenção e tem que se desdobrarem, produzir alguma coisa que os destaque para que possam entrar no rol dos respeitados pelos mestres.
O mesmo não podemos dizer a respeito dos alunos que ingressam nas escolas do ensino fundamental: o ensino nesta etapa é OBRIGATÓRIO. Assim a massa de alunos nas escolas pode ser dividida entre as seguintes categorias:
• Inteligentes com boa memória e motivados;
• Inteligentes sem boa memória e desmotivados;
• Inteligentes sem boa memória e motivados;
• Inteligência e memória médias e motivados;
• Inteligência e memória médias e desmotivados;
• Inteligência e memória pequenas e motivados;
• Inteligência e memória pequenas e desmotivados;
• Alunos com problemas que afetam a aprendizagem sejam eles físicos, psicológicos ou biológicos que podem levar ao desinteresse ou à incapacidade de aprender; e
• Os que são naturalmente apáticos e indiferentes a tudo sem que isto tenha sido causado. Os totalmente desmotivados, não apenas em relação aos estudos, mas a tudo na vida.
Quando se fala em classificar os alunos segundo suas aptidões naturais se levantam as vozes daqueles que querem uma inclusão forçada, incoerente e improdutiva.
A inclusão deve se dar na família, no bairro e nos meios disponíveis na cidade tais como transportes, cinemas, teatros e trabalhos que não percam em custos e produtividade devido às restrições do trabalhador. Sem as falácias de que pessoas com problemas físicos e/ou mentais possam entrar no mercado de trabalho para exercer funções que evidentemente não são capazes de cumprir/executar sem o auxílio de terceiros. O que ocorre na verdade é que quando um sujeito sem as condições necessárias é colocado, por imposição legal, para exercer uma função a qual não é capaz de realizá-la apenas por si mesmo, como ocorreria caso não houvesse restrições, uma ou mais pessoas são colocadas para ajudá-lo. Esses fazem o que ele não é capaz de fazer. Todos os menos capazes entendem e sabem que estão empregados em funções que reconhecidamente não conseguem exercer em sua plenitude simplesmente por pena da sociedade, uma esmola que corresponde ao seu salário visto que recebe sem produzir satisfatoriamente.
Como exemplo pode-se citar cegos totais, de nascença, sendo graduados em faculdades em ciências humanas, exatas ou mesmo médicas. É difícil entender como é que um aluno nesta condição física pode aprender geometria analítica, fazer plantas, interpretar gráficos, fazer uma cirurgia etc. Se o conhecimento que eles deixam de construir nas faculdades (e mesmo assim são aprovados) não é importante para a graduação, então por que é que não se os retiram da grade curricular?
Essa demagogia com os fisicamente incompatíveis restringe ao fisicamente por que os mentalmente restritos possuem suas incapacidades decorrentes de problemas neurológicos que nada mais são do que físicos. Como não sabemos ainda, com certeza, o problema físico que causa essas distorções neurológicas, as denominamos mentais, mas isto apenas no aspecto pedagógico; assim ocultamos nossa falta de conhecimento sobre o assunto. Tem-se também surdos estudando música, paraplégicos estudando educação física e muitas outras situações similares. Esses profissionais não serão autônomos, não serão capazes de sozinhos, executar o que a profissão exige. Para que colocar duas ou mais pessoas para executar uma tarefa se apenas uma mais capacitada para tal a pode realizar com mais competência?
Este enfoque de incapacidade é muito considerado pelos humanistas como ela se fosse uma irregularidade que devesse ser reparada e aceita como natural, como algo distinto que deva ser analisado e compensado de alguma forma. Entretanto o que não se destaca é que somos todos incapazes. Ninguém pode fazer tudo o que quer e, pior ainda, a maioria capacitada não pode fazer o que deseja, não consegue realizar seus sonhos profissionais.
Não é porque se gosta de voar que poderá se tornar um piloto, não é porque se gosta de música que se tornará um compositor, cantor lírico ou não. Todos temos restrições para alguma coisa. Afinal quantos conseguem correr 100 metros rasos em menos de 10 segundos? Para os que conseguem os demais são incapazes, possuem restrições físicas que os impossibilitam de correr na velocidade necessária. Vamos chorar por causa disto ou aplaudir os que conseguem essa proeza? Pessoas de muito baixa estatura querem jogar basquete, vôlei etc., pessoas de muito alta estatura querem ser submarinistas, motorista de táxi, digitadores, pianistas etc. Cada qual com seu cada qual diz o dito popular. Todos temos desejos pessoais e na maioria das vezes eles não são compatíveis com nossa predisposição biológica.
Para a sociedade deve-se exigir que cada um faça o que for capaz de melhor fazer, caso o melhor seja o que o sujeito deseja realizar ótimo, caso não, o que o sujeito deseja poderá se tornar o que chamamos de hoby. A sociedade deve arcar com os custos para que o sujeito desenvolva o que melhor pode empreender, já o hoby, deveria ficar por conta do próprio indivíduo, afinal seria um tanto ilógico financiar algo que só dá prazer a quem o faz, mesmo que este hoby produza resultados de boa qualidade e que sejam também úteis à sociedade.
Cada um procura aquilo que melhor é capaz de fazer, aquilo que lhe permite se destacar na multidão. É esse algo mais , esse destaque que consegue as melhores oportunidades no mercado de trabalho. O mercado, a sociedade necessita dos melhores, pois são eles que aumentam a eficiência e a competitividade que mantém vivo o desenvolvimento em todos os campos da sociedade.
A autonomia, a satisfação de ser independente e respeitado, por mínima que seja a atividade que se executa é o que desenvolve a autoestima e ensina a respeitar os demais porque é sendo respeitado que se aprende a respeitar, e esse comportamento é o que permite um conviver social harmonioso.
Não é exigindo algo de alguém que não é capaz de fazê-lo que o estamos incluindo. Essa inclusão nada mais é do que uma demonstração humanística que permite que incapazes possam exercer funções mais bem remuneradas sem na verdade desempenhá-las satisfatoriamente. Na hora da emergência, na hora em que realmente se precisa de competência, se chama os mais capazes que foram deslocados para que os menos capazes ocupassem seus empregos. Basta uma guerra eclodir...
Complementando esse raciocínio temos ainda a influência religiosa. Certas igrejas estabelecem/interpretam normas que devam cumprir e muitas delas vão de encontro com as normas de empresas e/ou instituições. A Incoerência dos que se dizem religiosos chega a ofuscar a inteligência e a hipocrisia. Exemplo típico, a religião cristã prevê o perdão sempre, prevê a não violência sempre, prevê a caridade sempre, mas os religiosos querem ser militares, combatentes, policiais que precisam utilizar a violência quando necessário for. Ora bolas, com tantas profissões disponibilizadas por que se procura justamente aquelas que vão de encontro aos princípios religiosos cristãos e não cristãos?
A resposta nua e crua é simples: emprego e boa remuneração. Assim temos donos de bares evangélicos que vendem bebidas alcoólicas, evangélicos que vendem produtos eróticos etc. Essa hipocrisia é uma continuidade da hipocrisia da idade média onde a igreja tinha exércitos e matava e injuriava em nome de seu deus. É o resultado da segregação judaica onde as leis valem somente para os judeus, logo os que não o forem que se danem, podem ser mortos, torturados sem nenhum problema.
Da mesma forma temos a democracia norteamericana que a propósito de “democratizar” o mundo invade arrasa e mata populações e governos em outros países militarmente mais fracos. Entretanto quando um país tenta impor a vontade do seu povo e essa vontade vai de encontro aos interesses econômicos e/ou políticos dessa potência militar essa vontade é massacrada com o auxílio dos democratas. Ou seja, a democracia é boa para os norteamericanos, para os demais países ela será boa apenas quando os interesses desse povo/governo coincidir com os interesses desse país mais forte que se intitula guardião da paz e dos direitos humanos, embora seja o país que mais guerras e distúrbios internos provoca e menos os direitos humanos respeita quando não se trata de norteamericanos, e, mesmo assim, apenas aqueles da sociedade civil mais esclarecida e rica. Negros e latinos e estrangeiros de países mais pobres também sofrem por lá.
Somos máquinas biológicas que funcionam de acordo com seu projeto estabelecido por meio do DNA específico de cada um, não somos iguais, não temos a mesma capacidade, nos aproximamos pelas similitudes e não pelas diferenças. Comemos e bebemos quase as mesmas coisas, vestimos e moramos quase da mesma maneira, lamentamos e choramos quase que pelas mesmas coisas, poucas coisas nos aproximam e nossa realidade social se baseia nessas similitudes que mascaram as diferenças de cada indivíduo. Ser diferente é ser normal; anormal seria se fôssemos exatamente iguais uns aos outros. Portanto cultuar as diferenças no sentido de tentar reduzi-la não é a maneira mais adequada de tentar fazer com que os direitos de todos sejam respeitados quando a recíproca, ou seja, os deveres de todos devem ser também cumpridos. Válido é lutar diuturnamente para reduzir as incapacidades de cada um de nós, mas forçar o sujeito, mesmo com a sua querência, a realizar muito bem algo para o qual não possui habilidade/competência se torna na verdade um autoritarismo disfarçado de democracia, uma tortura.
Estudar o que se deseja estudar é uma coisa, estudar o que não deseja apenas para almejar trabalhos que não deseja executar, de olhos voltados apenas para o prestígio social e/econômico é a forma mais moderna de escravizar o trabalhador. E o retorno social consistirá na atuação deficitária de profissionais incompetentes e desinteressados.
Somos todos incapazes de executar centenas de atividades e capazes de executar outras tantas de maneira satisfatória e uma ou pouquíssimas atividades com alto grau de excelência. Se se é cego, surdo, mudo ou se tem alguma doença crônica etc. as habilidades são reduzidas drasticamente, mas sempre haverá algo que se possa fazer, quando não apenas executar algum movimento já estabelece um pouco de autonomia. Paradoxal é ver pessoas com sérias restrições se esforçando além de seus limites para realizarem coisas simples para os que não possuem essas mesmas restrições enquanto pessoas biologicamente saudáveis em todos os sentidos ficam exercendo atividades que exigem pouquíssimos recursos físicos tais como ambulantes, camelôs e caixas de supermercados e do comércio em geral, entre outras. Os capazes exercem funções aquém de suas capacidades e os menos capazes querem exercer funções que exigem mais do que eles podem realizar. É ou não um paradoxo?
A inclusão deve ser promovida em escolas especiais que permitam ao sujeito praticar exercícios/atividades que auxiliem a reduzir suas incapacidades mais destacadas e que afetam sua autonomia na sociedade e no lar. Isto pode se dar ensinando o código Braille para que os cegos possam ler, a linguagem de sinais para que os surdos possam se comunicar, LIBRAS, a fisioterapia para os deficientes físicos/mentais para ajudar a desenvolver os movimentos necessários para uma autonomia mais ampla.
Nas escolas regulares os alunos devem ser capazes de se comunicarem claramente com os professores e serem capazes de executar as atividades que são necessárias ao processo ensinoaprendizagem. Se isto não ocorre a falácia da inclusão está caracterizada.
Cada um deve aprender apenas o que é capaz e isto desde que este conhecimento possa ser visto pelo aluno como algo útil que será necessário, a curto ou médio prazo, para melhorar a qualidade de sua vida. Este é o papel do professor: primeiro mostrar a importância do conteúdo que ensina e, em seguida, com o aluno ciente de que deve se esforçar para aprender visto redundar em algo benéfico para si mesmo, orientá-lo para que ele construa este novo saber.
Todos somos capazes de aprender alguma coisa e todos temos limites sejam eles físicos ou não. Superar esses limites é sempre uma aventura, mas não será às custas da dignidade que se deve aventurar para no fim ser visto com condescendência e até mesmo escárnio. Devemos fazer o possível e o não possível para ampliar os limites que cerceiam a autonomia básica que consiste em pelo menos em poder se locomover de um lugar para outro com segurança e em cuidar de si mesmo seja na higiene pessoal, na saúde e na alimentação. Para que os limites que representam marcas, que nos informam as limitações das capacidades deve-se empreender atividades e procedimentos específicos para sua ampliação, porém sem comprometimento da autonomia e da dignidade, pois são elas que dão ao ser humano a sensação de realização pessoal.
Voltando à pedagogia socrática. A própria ciência, dentro de seus critérios de verdade foi passando das verdades dogmáticas dos mitos e das religiões (que se ofendem ao serem chamadas do que realmente são: mitos) para a fase das comprovações experimentais e estas foram sendo questionadas sob diversos aspectos quanto à sua veracidade, pois as afirmações científicas foram e estão sendo continuamente reconstruídas. Têm-se hoje, em destaque, o método hursserliano que estabelece que uma “verdade” científica deve ser divulgada e se expor às contínuas contestações, enquanto essa verdade resistir aos ataques, enquanto refutar as críticas que tentam tornar essa verdade uma falácia ou pelo menos uma verdade restrita a limites forçados ela será considerada uma verdade válida. Essa verdade deverá ser refeita sempre, não apenas para anular as críticas porventura recebidas, mas sempre que de algum modo, se mostrar incoerente, insuficiente e/ou contraditória.
A veracidade das respostas do dialogante com Sócrates eram contestadas continuamente pelo filósofo e o aluno, com auxílio do próprio Sócrates, ia refazendo suas conclusões até chegar a um ponto em que, mesmo não tendo chegado a um termo definitivo gerava uma problematização sobre o tema em debate a qual fazia com que o aluno adquirisse amplo domínio sobre a questão em pauta. Para Sócrates, tudo indica que ele premeditava todo o desenrolar da discussão, e o termo final a que se chegava, ou melhor, que o aluno julgava ter ele próprio, sozinho, ter alcançado, já estava previsto desde o princípio por Sócrates.
Como se pode observar, se Sócrates vivesse os dias atuais seu métodos pedagógicos ainda estariam, pode-se dizer, em voga e muito atualizados.
Na contemporaneidade de Sócrates, cerca de quatro séculos antes da era cristã, as profissões em geral, eram principalmente artesanais, trabalhos manuais como agricultores e pecuaristas, ferreiros tecelagem etc. e estas atividades eram consideradas de somenos importância e, portanto eram executadas pelos estrangeiros e escravos, assim como hoje em dia as profissões de empregada doméstica, e trabalhos pesados que exijam pouca instrução são executados, nos países mais ricos, por estrangeiros (quase escravos).
Era pela observação in loco e acompanhamento diuturno junto aos mais experientes que os aprendizes se tornavam os novos profissionais. Essa metodologia, que nunca deixou de existir nas culturas humanas, persiste atualmente na figura do estágio supervisionado que os cursos técnicos e os de graduação exigidos pelos sistemas educacionais em geral para a obtenção do diploma que autoriza oficialmente o estudante a exercer sua profissão na sociedade que o formou ou também naquelas que o reconhecem como válido.
Este método da participação direta na prática foi muito empregado por Sócrates que aproveitava os conhecimentos reais para explicar e tentar convencer aos outros as suas convicções. Isto pode ser percebido claramente no livro “Êutifron”, escrito por Platão, que trata da impiedade e da justiça.
A utilização pedagógica de visitas técnicas em estabelecimentos que utilizam os conhecimentos construídos em sala de aula é muito benéfica no sentido de mostrar ao aluno a real necessidade que ele tem de se empenhar nos estudos visto que sem construir o conhecimento necessário ele não será capaz de executar as tarefas da profissão que deseja desempenhar.
Sócrates sintetizou uma pedagogia realmente livre e democrática onde cada um podia dizer o que pensava. A razão, a lógica do raciocínio, o incentivo elogioso e a coerência eram os instrumentos que ele utilizava para que seu aluno, pouco a pouco, fosse organizando seu pensamento até chegar a um ponto em que, mesmo sem uma resposta conclusiva, ele pudesse ter um amplo conhecimento racional sobre o ponto em debate. A inconclusividade dos temas que Sócrates gostava de abordar e levava seus interlocutores, sorrateiramente a neles adentrar é um parâmetro que não pode ser desconsiderado. Pelo fato de não se chegar a uma resposta definitiva sobre uma questão esta estava sempre em discussão e isto ele gostava de checar com as pessoas com quem conversava.
Ele procurava especialmente as pessoas que eram famosas e se gabavam de saber muito bem alguma coisa e era justamente esta coisa que ele colocava em questão. É evidente que ao se ver logicamente obrigado a admitir que não sabia o que propalava saber, seu oponente, mesmo agora sabendo mais do que antes, quando julgava tudo saber sobre o assunto, se sentia inferiorizado e surdamente ressentido com Sócrates. Muitas dessas pessoas eram influentes na sociedade o que levou, posteriormente, à condenação de Sócrates em um julgamento onde, logicamente, devido à sua defesa muito bem elaborada, clara e objetiva, não há sentido em que decorresse em condenação, sendo racionalmente esperado que ele fosse inocentado. Sua acusação de impiedade (não respeitar aos deuses, não ter fé, dizer heresias) e de corromper a juventude e sua condenação, pode ter sido politicamente forjadas para a realização de uma vingança dos que se sentiram desacreditados por Sócrates.
Podemos resumir a pedagogia socrática nos seguintes pontos:
• O aluno deseja aprender algo sobre um tema específico;
• Esse tema é muito bem conhecido por Sócrates;
• Por meio do diálogo, baseando-se principalmente em perguntas e respostas que eram analisadas segundo a coerência da razão, o aluno é levado a ampliar as informações que se referenciavam ao tema em pauta e construía um parecer próprio sobre a questão proposta. O diálogo e essa construção eram planejados e orientados por Sócrates que, embora desse a entender que nada sabia sobre o tema o conhecia e já o tinha reestudado diversas vezes.
• Sócrates se mantinha atualizado sobre as questões que lhe interessavam, principalmente as problematizações de cunho social como por exemplo a beleza, a coragem, a justiça, a verdade etc. Para tanto, sempre que possível, levava os diálogos de que participava para uma reflexão sobre um desses pontos. Assim ele se mantinha atualizado executando atividades que lhe possibilitavam uma formação continuada tanto pela problemática contínua quanto pelo exercício da memória.
• O aluno era livre para ir quando assim o desejasse.
• O objetivo de Sócrates era clarificar o pensamento do aluno pela razão e não pela ideologização.
• Por fim o aluno estava convicto de que encontrara a melhor solução possível e a defendia como se fosse realmente sua a conclusão alcançada.

A condenação de Sócrates relatada por Platão na “Apologia de Sócrates” que relata o julgamento com as acusações de Milito e a defesa feita pelo próprio Sócrates mostra sem dúvidas que as respostas do réu aos seus acusadores demonstravam racionalmente que o mesmo era inocente de todas as acusações feitas o que nos leva a depreender que sua condenação foi meramente política. Afinal impiedade e corrupção dos jovens era coisa que ele não promovia, muito pelo contrário. As leis da cidade eram para ele sagradas, tanto que preferiu a morte a fugir para que a sua execução não se efetuasse, logo era improvável que Sócrates transgredisse uma só lei que fosse na sua comunidade.
Outro aspecto que não se pode desprezar na metodologia socrática que, infelizmente, dificilmente foi e é visto no decorrer de toda a história da humanidade é o exemplo pessoal, um modus vivendi coerente com o conhecimento que o professor mediador planeja construir juntamente com seus alunos.
A responsabilidade, o planejamento, o respeito para com todos os alunos, objetivos realmente válidos que justifiquem o grande esforço dos discentes que desejam aprender e principalmente um agir pessoal que demonstre que o que se ensina e exige é realmente bom, mas tão bom, que o professor o aplica no seu quotidiano. Assim o bom mestre não mente, não externa preconceitos, mesmo que os tenha, é responsável, sempre planeja suas aulas detalhadamente mesmo já as tendo ministrado centenas de vezes, dá voz ao aluno, e, estando ou não na escola é sempre um professor, um homem equilibrado emocionalmente, confiável, honrado, ético, preocupado com o bem estar comum. Em suma o professor deve ser um exemplo de cidadão que cumpre todos os seus deveres e exige todos os seus direitos. Na verdade, em termos de formação humana são as atitudes do mestre que causam admiração e se modelam como exemplo que deva ser seguido.
Quando um professor não faz o que exige de seus alunos ele afirma subliminarmente que os valores só devem ser respeitados quando estão sendo observados. Este é o primeiro mandamento da corrupção que infelizmente vem sendo ensinado na família e nas escolas.
Sócrates foi e ainda é um exemplo que os que se intitulam educadores deveriam seguir.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nossa insignificância ajuda a contruir a universo


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