terça-feira, 16 de agosto de 2011

ERRAR É DESUMANO

ERRAR É DESUMANO PERDOAR É HUMANO

Virgilio Reis – 19 mai 2011

Errar é humano, perdoar é divino (perdoar aquele que erra). Este bordão vem há séculos entranhado na cultura ocidental. Se diz, se diz e, de tanto se dizer sem que haja contestações, aos poucos ele vai sendo aceito como verdadeiro, mas será que essa afirmativa tem algo de concreto, lógico que levem as pessoas a aceitarem como verídica? É possível que não. A interpretação básica deste dito nos leva a compreender que todos os seres humanos são passíveis de cometerem erros e que perdoar a quem erra é uma ação moralmente superior por parte de quem compreende a falibilidade humana.
Para início de conversa é preciso identificar de forma consistente o que vem a ser esse tal erro. Primeiramente gostaria de destacar que, sem o erro não seríamos humanos, seríamos como o deus cristão, visto que pela cultura Cristiana apenas ele é infalível, ou seja, é o único que não errou e não erra. Somos deus? Dificilmente alguém acreditaria que sim. Se não somos deus então está implícito que erramos no passado e erramos no presente e erraremos no futuro. Logo podemos concluir que errar é uma das características que identificam o ser humano. O erro é o resultado de uma escolha entre coisas que não são suficientemente conhecidas.
Não conhecemos segura e totalmente sequer uma ameba, não conhecemos totalmente nada neste mundo, estamos sempre em busca de um conhecimento total, mas quanto mais apreendemos informações mais nos conscientizamos de que muito mais ainda falta ser conhecido. Erra-se constantemente e se errará até que uma verdade incontestável individualmente e aceita universalmente se instale na humanidade por inteiro. A partir disto apenas enganos ocorrerão visto que o erro decorrente do desconhecimento de todas as variáveis que envolvem qualquer problema estaria eliminado pelo conhecimento adquirido e aceito como verídico.
Aquele que sabe e erra, na verdade se equivoca ou se descuida, mas todos temos um campo de informações e conhecimentos construídos de forma que o que para um possa ser um engano crasso, para outros, que detém menos informações e conhecimentos, não se trata de engano e sim de erro. O engano é humano e ao mesmo tempo, quando é chamado de erro, se torna um eufemismo para aliviar a culpa de quem o cometeu. O erro é decorrente da ignorância, do desconhecimento e o engano é decorrente do próprio do saber. Apenas quem sabe se engana, quem não sabe, este sim, erra.
Conceituado o erro podemos voltar ao ponto de partida: errar é humano? Perdoar é divino? Sim errar é humano, visto que muito nos falta para conhecer, mas não se pode afirmar que perdoar é divino. Afinal o que vem a ser o perdão? Perdoar implica em tirar todo o rancor, todo o ódio, todo o sentimento de vingança, todo o desejo de punir de dentro da mente de quem perdoa? Isto é possível de ser feito? Quem é capaz de odiar ou amar ao bel prazer? Quem pode controlar seus sentimentos, eliminar suas mágoas?
Quando muito, o que se vê é: coloco nas mãos de deus, a justiça divina não falta. Quem assim diz sabe muito bem que a justiça divina que ele entende como tal é mais severa do que as próprias punições feitas pela sociedade. Na verdade isto não é um perdão, é uma transferência de responsabilidade, uma troca: eu perdôo e ganho o mérito humano e divino e, ao mesmo tempo asseguro uma justiça que castigará exemplarmente aquele que ofendeu, magoou, transgrediu. Assim fica fácil não? Agora, um perdão sincero, que elimine todas as mágoas e ressentimentos, que devolva a confiança, o respeito e a amizade, na verdade não existe. O melhor que fazemos é: Perdôo-te, mas suma da minha vida. É aquela historinha de sempre: as feridas saram, mas as cicatrizes nunca desaparecem...
Perdoar é divino? Se deus existisse e perdoasse todos os transgressores o que seria deste mundo? Não, ele perdoa apenas os que se arrependem..., mas o arrependimento existe mesmo? O arrependimento acontece quando se deseja fazer algo e se acaba fazendo outro com conseqüências danosas para quem cometeu a ação ou para alguém de sua estima ou inocente estranho ao fato em si. Via de regra os arrependidos de araque afirmam, se ajoelham e juram que se arrependeram, mas se a situação se repetir de forma similar à que propiciou o mal que requereu arrependimento, invariavelmente o erro será repetido.
Se deus perdoar ele não estará aplicando a sua justiça. Perdão e justiça não combinam, misericórdia e perdão devem ser direcionados para os que erram e não para os que se enganam, os que erram nem sequer tem consciência de seu erro, outros é que o apontam. Os que sabem o que não deve ser feito e mesmo assim o faz não erram e nem se enganam estes são as ervas daninhas que não foram devidamente preparadas quando crianças. Esta história de que a justiça e a misericórdia de deus são coisas inapreensíveis para nós mortais é mais uma justificativa que procura eufeminizar nossa ignorância. O perdão divino seria a confirmação de que deus teria preparado inadequadamente o ser humano para viver em sociedade, mas como o deus não erra, não haveria então necessidade de perdão, de misericórdia, graça etc.
A sociedade é complacente com o erro e com o engano involuntário visto que engano voluntário nada mais é do que uma má ou inadequada ação cometida intencionalmente. Daí temos os crimes culposos ou dolosos. O homem perdoa o erro, perdoa o engano, mas tenta se vingar irracionalmente dos que cometem, intencionalmente, mesmo que inconscientemente, ações transgressoras que agridem os demais membros da sociedade.
Errar é humano, perdoar é uma balela onde os que perdoam não são os agredidos, mas os que julgam.
O erro é inevitável visto que tudo de algo não sabemos para podermos tomar a decisão correta sem qualquer sombra de dúvida. Se enganar é mais pessoal e comum no dia a dia e são esses enganos decorrentes da displicência, da irresponsabilidade, da falta de compromisso com a sociedade em que se vive que geram males totalmente passíveis de serem banidos da coletividade. Aviões caem, carros batem, viram, capotam, barcos afundam, tubulações explodem, grandes negócios e oportunidades são perdidos por uma falha na comunicação, a falta de clareza na comunicação gera grandes transtornos que demoram a ser superados... e tudo isto devido a enganos que não podemos denominar de pequenos ou de grandes porque de todos eles decorrem grandes males para a sociedade e para quem o pratica.
Os enganos voluntários, as transgressões que levam a violência contra a pessoa ou seu patrimônio são os responsáveis por milhares de situações de dor, desespero, angústia e revolta. Assaltos, seqüestros, desvios de verbas, tráfico em geral, furtos, escravidão, tortura, fome e morte. O intrigante é que para os enganos involuntários decorrentes da irresponsabilidade e da displicência dispomos de tribunais, conselhos de profissionais especializados, alta tecnologia para investigação etc. tudo isto visa garantir o pagamento do seguro que as seguradoras fazem de tudo para reter. Por outro lado, a violência diuturna que inferniza a vida de todos dispõe de um aparelho de segurança humano e material normalmente insuficiente e desqualificado. Por isto a cada dia temos mais mortes e violência. Em suma, se gasta mais para garantir o patrimônio do que vidas.
Não houvesse enganos voluntários e o paraíso seria aqui. A maioria de todos os males que nos afligem decorre desses enganos. Portanto se queremos um mundo melhor é preciso que esses enganos sejam erradicados e isto somente se dará quando o cidadão que se diz de bem retirar a máscara da hipocrisia e deixar de comprar objetos roubados por uma pechincha, deixar de sonegar impostos, deixar de se apropriar furtivamente do que não lhe pertence, cuidar mais uns dos outros. Pensar a médio e longo prazo, racionalmente, no coletivo e não no individual; este é o caminho.

Errar é humano, se enganar é decorrência da irresponsabilidade e da incompetência onde despreparados executam funções importantes, cometer ações inadequadas e antissociais é crime. Combater o crime deveria ser o foco principal de todo governo, pois sem segurança não há vida humana que possa ser chamada de boa.

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